quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Lucian Freud

Depois de falar de beleza, de imitar a realidade, de maquiar a feiúra e tentar colorir o mundo que vemos, do século XVIII para cá, as artes plásticas começaram a falar do homem como ser pensante, como ser que deseja, que ama, que sofre e que sente – dando início a movimentos que seriam muito mais apaixonantes do que tudo que já fora feito -pelo menos pra mim. A partir da primeira metade do século XX, então, começa o surgimento de uma arte viva e atual, que fagocita a psicanálise e a filosofia a fim de falar do “eu”.
Vamos falar de você, então. Chame Francis Bacon para a conversa, Marina Abramovic. Chame Sigmund Freud, Sartre, Foucault, Derrida, Beauvoir, Skinner, Guatarri. Vamos falar de nós: Chame Lucien Freud e sua exposição gigantesca que chegou na cidade-luz há um mês e tem causado um alvoroço descomunal – e pare por aí. Pois bem, cheguei aonde queria : vamos falar de Lucian Freud, que é melhor.
Pra quem já viu de perto seu trabalho, chocante é perceber a dimensão do que é ser humano. As telas, praticamente todas tendo como locação o ateliê do artista, variam de iluminação, composição e modelos conforme os desejos e angústias do pintor: ora identifica-se um dia de primavera em que ventava suavemente, ora um dia de inverno prestes a chover. Freud usa todas as cores possíveis e imagináveis para representar um modelo: laranja, verde, roxo, azul – cores tão distantes dos tons da pele humana, mas que quando justapostas calculadamente dão uma textura quase real às imagens. É possível, ainda, observar o próprio ateliê do pintor em determinados trabalhos: a parede usada como um grande godê parece mais uma tela de Monet, um de seus campos de flores impressionistas – mínimos pontos, às dezenas, como se víssemos ao longe um jardim na primavera, e a parede estivesse viva e relutando contra toda essa angústia de existir que o pintor faz questão de retratar. O ato de ser humano é difícil demais e Lucian conseguiu entender isso melhor do que ninguém, continuando o legado de seu avô, Sigmund Freud, e abrindo o caminho para outros milhares de artistas jovens que queriam falar dessa angústia, mas não sabiam o que fazer. Não que ele tenha sido o primeiro a fazer isso, mas seu trabalho é primordial para entendermos a influência da psicanálise na Arte Contempoânea.
Seja MOMA, George Pompidou, MASP ou qualquer outro espaço cultural, o importante é se deixar ser tocado pela arte que está sendo produzida hoje em dia. A princípio pode até parecer um pouco chocante, mas ignorar simplesmente a genialidade dos grandes mestres contemporâneos seria deixar de lado uma reflexão mais profunda e evitar questões mais complexas do que costumamos achar que conhecemos bem : nosso eu.


texto escrito em função da exposição Lucian Freud - O Ateliê, que esteve no centro George Pompidou entre Março e Julho de 2010. Disponível em http://cultura.updateordie.com/2010/04/02/9396a-arte-do-ser-pensante/

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