quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sobre Pintores e Seus Modelos


2009

Observando o trabalho de Gerard Fromanger (acima), percebe-se que o artista aborda questões bastante atuais, utilizando uma linguagem contemporânea na confecção de suas obras. Por outro lado, é interessante ilustrar seu trabalho por meio de um texto que discorre sobre outro artista -Gerard às vezes é tão próximo a Diego Velasquez, que se pode analisar uma série de telas do pintor contemporâneo baseando-se num ensaio sobre uma obra do artista barroco: pois “de uma forma bastante ousada para a época, o artista põe em evidência alguns dos rostos socialmente menos marcantes na vida diária(…)- onde se inclui ele próprio, (…) que aqui aparecem refletidos em pequenas silhuetas fantas magóricas(…)”* .
O trabalho de Fromanger é de um todo bastante conciso. Entretanto, há de se chamar a atenção para a série O Pintor e Seu Modelo que ele produziu: apesar de possuir um tema completamente atual, o paralelo com a obra As Meninas, de Velasquez, é nitidamente possível. Na composição da obra tanto de Fromanger como de Velasquez, pode-se identificar o cotidiano da época em que foram pintadas, mas de uma forma não muito adotada: em ambas o artista se insere na pintura, sem ter o intuito de produzir um convencional auto-retrato.



Há de se diferenciar, porém, o modo como as obras interagem com o espectador: enquanto o pintor barroco concebe um grande espelho que transporta o público para a época em que foi produzida a tela, o contemporâneo se insere como uma mancha negra numa paisagem cotidiana, podendo o observador se colocar da mesma forma quando se identifica com a sombra que há no quadro. Em ambas, pode-se fazer referência ao que Sartre define por voyeur: enquanto Velazquez se pinta observando o público, traz à consciencia do observador de que ele também é observado (seja pela figura do quadro, que o olha fixamente, seja por qualquer outra pessoa que divida o mesmo espaço que ele); já Fromanger, no momento em que se insere como silhueta na obra, passa a ser identificado como voyeur (da paisagem presente no quadro e do público) no instante em que o observador nota a sombra como observadora também de algo. É no momento em que o observador da imagem se identifica na figura do observado (por Velasquez e Fromanger), que o voyeur passa a existir.
Ao contrário da obra As Meninas, Gerard dá a possibilidade de qualquer pessoa se colocar na pintura: quando se repousa em contraluz ao lado da silhueta do artista, é possível se inserir na tela e observar (quase como se tivesse sido pintado juntamente ao lado da imagem do pintor) a vitrine monocromática pictoricamente representada na obra Vermelho Cádmio Claro. Ou mesmo se colocar como o observador de uma silhueta que está olhando para algo, cruzando a sua própria sombra com a retratada na imagem.
Paralelamente, as duas obras permanecem próximas enquanto registro quase fotográfico: Velásquez congela um instante histórico e nos relata durante séculos o que aconteceu, como se nos mostrasse um fotograma original da cena relatada. Fromanger, por outro lado, registra a cena fotograficamente e a torna pintura quando quebra sua documentação, e se expõe nitidamente como observador da cena que observamos; aliás, se coloca na pintura no ato de projetar a fotografia na parede de seu grande ateliê, permanecendo no caminho da luz do projetor e inserindo-se na imagem, como quem observa novamente a cena (agora de fora). Em ambas, o artista aparece aos olhos do espectador, fazendo-se surgir dessa mágica gaiola virtual que a superfície que ele pinta projeta como espaço: em As Meninas, pelo fato de Velásquez estar explicitamente pintando a tela que vemos em nossa frente, isso fica mais claro.
Tanto Gerard Fromanger, como Diego Velásquez conseguem, nas duas pinturas, quebrar o distanciamento obra de arte – público – pintor, ao passo que o artista se coloca em sua obra (mas não é o objeto principal retratado) e convida o espectador a participar também da imagem. Isso as torna orgânicas, de tal forma que a experiência diante da pintura para cada espectador sempre será uma coisa nova e convidativa.
A exposição A Imaginação No Poder, de Fromanger, fica em Brasília até dia 15 de novembro. Ele, artista, um dos grandes nomes da Nouvelle Figuration, chega na cidade para mostrar um pedaço da arte francesa contemporânea, e nos embriagar de filosofia, história da arte e simplicidade; e além disso, nos lembrar um pouco de tudo que nós, homensdaeradigitalsemtempoparanada, esquecemos no nosso cotidiano.

*NABAIS, João-Maria. A Arte do Retrato n’As Meninas de Velásquez, in: Revista da Faculdade de Letras, I Série vol. V-VI, pp. 363-389, PORTO, 2007.

Texto em função da exposição Gerar Fromanger - a Imaginação no Poder, que esteve no CCBB de Brasília entre setembro e novembro de 2010. Disponível em: http://cultura.updateordie.com/2009/10/04/sobre-pintores-e-seus-modelos/

Lucian Freud

Depois de falar de beleza, de imitar a realidade, de maquiar a feiúra e tentar colorir o mundo que vemos, do século XVIII para cá, as artes plásticas começaram a falar do homem como ser pensante, como ser que deseja, que ama, que sofre e que sente – dando início a movimentos que seriam muito mais apaixonantes do que tudo que já fora feito -pelo menos pra mim. A partir da primeira metade do século XX, então, começa o surgimento de uma arte viva e atual, que fagocita a psicanálise e a filosofia a fim de falar do “eu”.
Vamos falar de você, então. Chame Francis Bacon para a conversa, Marina Abramovic. Chame Sigmund Freud, Sartre, Foucault, Derrida, Beauvoir, Skinner, Guatarri. Vamos falar de nós: Chame Lucien Freud e sua exposição gigantesca que chegou na cidade-luz há um mês e tem causado um alvoroço descomunal – e pare por aí. Pois bem, cheguei aonde queria : vamos falar de Lucian Freud, que é melhor.
Pra quem já viu de perto seu trabalho, chocante é perceber a dimensão do que é ser humano. As telas, praticamente todas tendo como locação o ateliê do artista, variam de iluminação, composição e modelos conforme os desejos e angústias do pintor: ora identifica-se um dia de primavera em que ventava suavemente, ora um dia de inverno prestes a chover. Freud usa todas as cores possíveis e imagináveis para representar um modelo: laranja, verde, roxo, azul – cores tão distantes dos tons da pele humana, mas que quando justapostas calculadamente dão uma textura quase real às imagens. É possível, ainda, observar o próprio ateliê do pintor em determinados trabalhos: a parede usada como um grande godê parece mais uma tela de Monet, um de seus campos de flores impressionistas – mínimos pontos, às dezenas, como se víssemos ao longe um jardim na primavera, e a parede estivesse viva e relutando contra toda essa angústia de existir que o pintor faz questão de retratar. O ato de ser humano é difícil demais e Lucian conseguiu entender isso melhor do que ninguém, continuando o legado de seu avô, Sigmund Freud, e abrindo o caminho para outros milhares de artistas jovens que queriam falar dessa angústia, mas não sabiam o que fazer. Não que ele tenha sido o primeiro a fazer isso, mas seu trabalho é primordial para entendermos a influência da psicanálise na Arte Contempoânea.
Seja MOMA, George Pompidou, MASP ou qualquer outro espaço cultural, o importante é se deixar ser tocado pela arte que está sendo produzida hoje em dia. A princípio pode até parecer um pouco chocante, mas ignorar simplesmente a genialidade dos grandes mestres contemporâneos seria deixar de lado uma reflexão mais profunda e evitar questões mais complexas do que costumamos achar que conhecemos bem : nosso eu.


texto escrito em função da exposição Lucian Freud - O Ateliê, que esteve no centro George Pompidou entre Março e Julho de 2010. Disponível em http://cultura.updateordie.com/2010/04/02/9396a-arte-do-ser-pensante/

sábado, 9 de outubro de 2010

Instruir e Divertir para Sempre

Nesse último domingo, 12 de setembro, às 23h no Hospital Beneficiência Portuguesa em São Paulo, Wesley Duke Lee se despediu do mundo artístico, não sem antes deixar um legado de obras que mudou a história das artes brasileiras.

Publicitário por formação, dedicado às artes plásticas por amor, Duke Lee firmou sua posição como artista indo contra, ironicamente, à arte política que se firmara no país na década de 60, trazendo, por exemplo, a Nova Figuração para o Brasil quando se tinha por todos os lados o Abstracionismo, além de ser pioneiro em instalações e happenings aqui, ainda não populares na época. Tinha sua própria visão política e sua forma de protestar contra o Academicismo, e graças à isso, o artista teve grandes dificuldades de conseguir seu espaço na cena artística do país, sendo recusado categoricamente em bienais de São Paulo, tendo finalmente uma obra aceita em 1965, que fora censurada.

Em parceria com Nelson Leirner e Geraldo de Barros, cria em junho de 1966 a Galeria Rex e o Jornal «Rex Time». Tinham como objetivo divulgar os artistas que se posicionavam contra a arte vigente na década de 60, e tampouco eram a favor do Mercado da Arte, das críticas que ocorriam em jornais, museus e bienais, além de discordarem do modo como a arte havia sido banalizada e se tornado nada mais que mercadoria, de acordo com o próprio Duke Lee. Exemplo claro disso teria sido o primeiro Rex Time intitulado « Aviso : é a Guerra »- contra a própria arte, no caso. O Rex possuía de certa forma o mesmo espírito dos Dadaístas e do Grupo Fluxus, visto que as intenções artísticas eram semelhantes. Por falta de recursos, porém, não durou nem um ano, encerrando suas atividades em maio de 1967.

Wesley, que veio a falecer de parada cardíaca, sofria de mal de Alzheimer e teve, felizmente, uma exposição montada em sua homenagem ainda em vida. A Pinakotheke no Rio de Janeiro inaugurou, após 18 anos sem nenhuma exposição do artista no país, uma mostra bastante completa, que começou em julho e permanece até dia 2 de outubro (mais informações podem ser obtidas no site da Pinakotheke). Sob curadoria de Fernanda Lopes, que defendeu em sua tese de mestrado pela UFRJ um trabalho conhecido como “A Experiência Rex”, a 29a Bienal da Arte de São Paulo também trará vários trabalhos de Nelson Leirner, Geraldo de Barros, Frederico Nasser, Carlos Fajardo e José Resende, conhecidos como o já citado Grupo Rex.

Wesley Duke Lee se despede mas deixa uma herança imensa para a arte brasileira. E pra quem ainda não conhece seu trabalho e pretende visitar as exposições que acontecem esse ano, deixe-se ser levado para o mar de possibilidades que o artista propõe. De acordo com o próprio Lee, “instruir e divertir” é o que o seu trabalho sabe fazer de melhor.

texto disponível em http://cultura.updateordie.com/2010/09/09/instruir-e-divertir-para-sempre-amem/