Em 1968, o Grupo Rex abriu a Exposição-Não-Exposição, que durou apenas 8 minutos. A forma como foram apresentados os trabalhos e a maneira revolucionária com a qual propuseram a vernissage causou um alvoroço descomunal e resultou na apropriação por parte do público de todas as obras da galeria. O Rex, ao contrário do que era esperado, ficou satisfeito com o que ocorrera, e Nelson Leirner, um dos artistas que tivera os trabalhos "roubados" durante a exposição, anunciou que a noite foi de grande êxito para o grupo.
Da mesma maneira que ocorrera na década de 60, numa sexta –feira, dia 05 de novembro de 2010, aconteceu na Galeria UnB, na 406 sul, uma vernissage tão dinâmica quanto propôra o Grupo Rex na sua época: Laurem Crossetti, aluna de bacharelado em Artes Plásticas da Universidade de Brasília, organizou uma exposição que deveria ser montada na hora, com a presença do público, e teria curadoria e textos de um futuro catálogo criados pelas pessoas presentes em sua abertura.
E assim se passou a vernissage: era permitido a livre montagem das obras, e ficava a critério do artista a disposição de seu trabalho dentro do espaço da galeria, assim como a moldura que seria ou não colocada e a modificação que poderia ser feita em trabalhos de outros artistas e afins. Após cerca de uma hora de exposição, houve a intervenção do grupo Corpos Informáticos, que montara no meio do espaço cultural uma área para se brincar com bolinhas de gude. Após alguns minutos, o local foi tomado por um mar de bolinhas de vidro, que se espalharam por todos os lados, inclusive atravessando a porta da galeria e se perdendo na grama que circuncidava o local. Com o auxílio de Bia Medeiros, professora da UnB, também fizeram intervenções em trabalhos da exposição, montando uma grande teia de fita crepe por toda a galeria, sem, de maneira alguma, prejudicar as obras.
Logo em seguida, eis que o público entendeu que a exposição poderia ser o que bem tivesse vontade que fosse, e se sentiu livre para mudar as obras de local, colocá-las numa parede diferente do que determinado artista já havia decidido, intervir censurando uma obra específica com um grande X de fita e assim sucessivamente. Resultado : a cada cinco minutos a galeria mudava completamente sua forma. Se fosse necessário se ausentar do lugar durante dez minutos por qualquer motivo, quando voltasse tudo estava diferente. Uma exposição completamente orgânica e viva.
A Presença das Idéias, na realidade, foi uma mostra que necessitou claramente do público para existir – como qualquer outra na verdade, mas o fato é que essa, especificamente, precisou da intervenção de quem estivesse em sua abertura para que tomasse forma. O interessante é que, apesar de a maioria das pessoas que lá se encontravam não ser de estudantes do departamento de artes da UnB, nem todos sabiam como funcionava a montagem: a disposição das obras no espaço, as obras que poderiam ou não ser colocadas devido a seu tamanho, a forma como eram pregadas na parede, etc, são coisas que efetivamente se aprendem quando se trabalha num Espaço Cultural e não, infelizmente, no curso acadêmico. E é de fato uma defasagem no ensino de arte, não só apenas da universidade de Brasília, mas como de várias outras no país; dessa forma, há de se denotar que Laurem Crosseti abriu esse espaço para o público poder participar de algo completamente novo.
O impasse é que, se a idéia parece ser inovadora – e o é – ela deve ser vista nesse primeiro momento como um experimento. Na abertura da exposição, após algumas várias intervenções, determinadas pessoas resolveram contribuir um tanto mais que as outras, talvez não medindo limites para a sua participação: a fita crepe que estava criando uma teia entre as obras, sofreu uma ação que a colou sobre as obras. Algumas aquarelas delicadas foram realocadas sobrepondo-se umas às outras, dando um peso no grupo de imagens que eram incoerentes com o trabalho do artista. Obras foram colocadas no sentido inverso, sem muito julgamento para isso, outras umas sobre as outras: no fim, o que deveria ser uma exposição com a participação do público, passa a ser um grande amontoado de obras numa galeria, sem muitos critérios para formar algo coeso e coerente.
Na verdade, a idéia da curadoria coletiva continua sendo louvável. O porém se dá em como se é permitido fazer isso. Deveríamos, talvez, limitar a ação do público durante a exposição, solicitando que tomasse cuidado para não danificar as obras, prestasse atenção na poética dos artistas e atentasse no momento de manusear os trabalhos para que nada fosse extraviado: um tanto incoerente. Não seria possível pedir tais coisas para pessoas que não são habituadas ao meio artistico e não enxergam esses limites tão claramente, o que inclusive para os que já estudam arte e fazem parte dessa redoma, não é algo assim tão simples. Além do que, me parece um tanto quanto abstrato o poder que teria a curadora de julgar quem é grande conhecedor de arte e quem não o é.
A arte existe pra ser observada e sentida e ela só pode ser completa se houver público para prestigiá-la. Dessa forma, parece-me justo convidá-lo a participar da montagem e produção de uma exposição que foi feita para ele. Mas é de suma importância pensar nos limites que se deva colocar para isso, visto que as obras precisam ser de certa forma preservadas, e algumas são necessarimente mais frágeis que as outras (e qualquer simples toque inadequado por qualquer pessoa possa ser o suficiente pra destruí-la); é preciso pensar nesse distanciamento histórico que se deu entre obra de arte e público no decorrer dos últimos séculos e como seria possível transpor esse abismo que transforma o artista num ser sobrenatural e inatingível e trazê-lo de volta ao plano dos mortais (que ele em verdade o é), no mesmo nível de pessoas que não produzem arte. Precisa-se quebrar essa redoma mágica que circunda uma exposição artística e faz parecer o artista como um deus criador, e a partir daí entao será possível se sentir mais íntimo e próximo do que se é apresentado. Tendo isso como ponto de partida, para que uma mudança se efetive, será necessário um longo e profundo trabalho de ressignificação dos espaços culturais e museais, para que passem a ser o espaço que de fato são: um meio de ligar o artista ao espectador, ultrapassando todos os pré-conceitos que se dão em ambas as partes - o público se vendo necessário para que a obra de arte se complete e o artista percebendo que seu trabalho não deva ser feito somente para outros artistas; a arte deve voltar a ser vista como algo mais próximo e evidente para o público que efetivamente não faz parte da redoma artística.